Nos dias 16 e 17 de maio, rolou aqui em São Paulo o Terceiro Seminário da Folha, sobre marcas de sucesso na moda. E eu tive o prazer de participar e ouvir gestores de grandes marcas brasileiras e internacionais falarem sobre o mercado de moda no Brasil e no mundo, os desafios e oportunidades que estão por vir.
O tema geral foi como as marcas convidadas nacionais conseguiram se consolidar em um país que não valoriza sua moda e têm como concorrentes marcas de fora com fornecedores e produções chinesas, enquanto as marcas convidadas internacionais investem no país à exaustão.
No dia 17/05, o calendário do evento foi bem mais apertado (muito mais, a ponto dos palestrantes terem que sair antes de terminarem suas apresentações) e tivemos a participação de Cris Barros, Lino Vilaventura, Luis Mendes da Gant, Ricardo Almeida e Rosangela Lyra, da Dior.
Cris Barros:
Cris Barros é uma dos três sócios da marca homônima Cris Barros.
A empresa hoje tem 10 anos, 170 funcionários, 4 lojas próprias e está presente em 85 multimarcas no Brasil. Além disso, a marca exporta para 21 países. Anualmente, são 2 coleções de Prêt-à-porter e da linha Limited Edition, além de acessórios e linha infantil de 0 a 12 anos. Para Cris, um dos pontos de contato mais importantes são as vendedoras, que passam por intenso treinamento para atender as clientes da melhor maneira possível.
A Cris Barro é uma marca exclusiva, cada peça é testada e aprovada individualmente antes de ir para as lojas. Este processo não é muito produtivo, o normal praticado no mercado é aprovar peças por lote, mas isso mostra um grande diferencial e cuidado com a qualidade. Obviamente, só é possível manter um processo destes com uma rede pequena de lojas. Este é um dos motivos pelos quais Cris nomeia um grande desafio da marca: como crescer sem perder a exclusividade e cuidado individual por cada peça?
Outro grande desafio comum às outras marcas é a falta de mão de obra qualificada. Cada ano que passa a oferta de costureiras e profissionais técnicos diminui.
Outro tema interessante abordado foi a parceria com a marca de fast fashion Riachuelo. Seguindo a tendência internacional de gigantes como Zara e H&M de convidar estilistas exclusivos para assinar coleções, a Riachuelo teve uma boa surpresa com a coleção de Cris Barros.
Segundo a estilista, o trabalho foi muito fácil e ela participou de todas as etapas.
Olhem o resultado. Teve até fila para entrar nas lojas:
Cris Barros acompanha todos os processos criativos da marca, desde o design das coleções às campanhas publicitárias.
Lino Villaventura:
A palestra mais incrível de todas foi a do Lino com certeza. Engraçadíssimo e irreverente, ele contou sobre seu processo de criação (ou a falta dele). Lino afirma que enquanto está criando suas coleções, não tem um conceito definido, uma inspiração, ele vai fazendo, e no final homenageia alguém com sua coleção.
As roupas de Lino parecem obras de arte e, apesar desta característica, ele defende que também oferece uma roupa mais casual e comercial.
A marca Lino Villaventura oferece coleções masculinas e femininas, e desfila no SPFW.
Sobre a mudança no calendário de desfiles, Villaventura se mostrou otimista, e diz que prefere passar pela correria de preparação de desfile em novembro, ao invés de segurar sua equipe no final de ano, época de feriados, para desfilar em janeiro.
Sobre produção, Lino defende que nem tudo que vem da China é de qualidade inferior, é possível sim conseguir produtos diferenciados com produção chinesa. Isto, porém, custa mais caro.
Lino foi um dos primeiros estilistas a exportarem, tendo já atendido clientes no Oriente Médio e Japão. A crise atual na Europa e Estados Unidos prejudicou muito o negócio dele, já que vários clientes cancelaram pedidos.
Quanto ao preço de seus produtos, o estilista diz que usa apenas os melhores materiais e isso tem um preço, claro. Ele também se coloca como um vencedor, e atribui a sua coragem e ao seu trabalho autoral o fato de estar no mercado há 33 anos, mérito conquistado com muito suor e pouco lucro, já que a valorização da moda no país não é um ponto forte do mercado.
Luis Mendes, Gant:
A Gant é uma marca que conta com uma rede de 400 lojas espalhadas pelo mundo. Hoje é uma marca Sueca, transição que se completou totalmente em 1999.
O DNA da Gant baseia-se no College Way of Life americano, com um toque europeu.
Os produtos são feitos com fibra natural e uma inspiração muito forte em esportes, como o rugby (ex.: Polo Rugger).
A marca conta com uma linha completa de roupas masculinas e femininas, além de uma linha infantil, de acessórios e produtos para casa.
Um fator interessante é que 70% dos produtos vendidos são masculinos, mas 60% das compras são feitas por mulheres. O que demonstra que a marca tem que se comunicar diretamente com o público feminino.
Como investimento na área de marketing, a Gant aposta em parcerias, como foi o caso com o diretor Michael Bay, e também lojas em localizações especiais. Atualmente, a Gant tem uma loja dentro do campus da Yale, uma das maiores e melhores universidades dos Estados Unidos.
Quanto ao Brasil, o desafio da Gant é adequar o produto ao clima brasileiro e às características financeiras do mercado, como opções de parcelamento.
A estratégia adotada pela marca é a de franquias e a Gant está presente apenas em 5 países com lojas próprias.
Ricardo Almeida:
Ricardo Almeida é um dos estilistas mais importantes da moda brasileira.
Segundo o estilista, se deve fazer uma escolha: preço ou alta qualidade. Ele escolheu a qualidade, o que faz com que seus produtos tenham um valor mais elevado que a média do mercado.
Entretanto, Almeida questiona as compras em Miami, e encara as marcas internacionais como concorrentes, principalmente pelo fato da moda brasileira não ser valorizada pelos brasileiros como a moda internacional. Um jeans da Ricardo Almeida custa 300 reais, preço que convertido em euros não fica longe de grandes marcas internacionais.
O início da marca, que hoje tem 25 anos, foi focado na alfaiataria masculina. Hoje ela também possui uma linha de jeans, tanto masculina quanto feminina.
Para mim, o ponto mais interessante da palestra de Ricardo Almeida foi sua opinião sobre eventos de moda, como o São Paulo Fashion Week, do qual ele não participa. Ele acredita que a maioria dos estilistas e os organizadores não estão percebendo que o tradicional calendário de moda é falho em alguns sentidos, como, por exemplo, o fato dos compradores, lojistas e clientes verem a coleção 3 meses antes de elas irem para as lojas. O ideal para ele seria fazer um desfile e na semana seguinte as roupas já estarem disponíveis. Com internet e a rapidez dos meios de comunicação a coleção se torna velha muito cedo.
Por isso, Ricardo Almeida faz seus próprios desfiles, fora do schedule do SPFW.
Quanto à produção, a marca retém apenas a produção própria dos blazers e camisas, os tênis e jeans são terceirizados e as gravatas são feitas na Itália.
Desde 2009, a marca Ricardo Almeida tem crescido de 40 a 50% anualmente.
Em relação ao cenário de moda brasileiro, Ricardo Almeida defende que lá fora as pessoas têm mais informação de moda do que no Brasil, o que leva a uma desvalorização das marcas nacionais.
Rosangela Lyra, Dior:
A Dior é uma das mais famosas, maiores e mais tradicionais marcas de moda no mundo.
Rosangela, que é a Diretora Geral da marca no país, começou contando sobre a história da marca, que acho que não cabe aqui. Quem quiser saber mais, clique aqui.
O que é interessante saber é que a Dior foi a primeira marca de moda internacional a entrar no Brasil, em 1959, o que mostra o interesse da marca no país muito antes do boom que aconteceu de alguns anos para cá.
Em 2011, a Dior cresceu 40% mundialmente, o que mostra que o mercado de luxo ainda tem fôlego, apesar de Rosangela colocar sua opinião pessoal de que no Brasil, as marcas de luxo internacionais já estão chegando à saturação.
Quando questionada sobre como uma marca de luxo sobrevive no Brasil sendo que o público da Dior no país viaja e faz (muitas) compras fora, Rosangela afirma que a Dior consegue se manter graças a uma estratégia especial adotada pela marca, e que outros concorrentes ainda não aplicam. Ao invés de manter os preços muito acima dos encontrados lá fora, a Dior diminuiu significativamente a margem no país, fazendo com que o preço não fique tão acima do encontrado nos EUA ou Europa. Isto, alinhado com a possibilidade de parcelamento que só é possível no Brasil, faz com que comprar Dior no país seja interessante.
Além disso, o investimento em CRM e atendimento é alto. O serviço das unidades Dior do Brasil está entre os primeiros colocados entre as lojas do mundo todo.
Quanto ao programa de CRM, a Dior registra os dados das clientes mundialmente. Caso a cliente compre em outro país, esta unidade vai saber os hábitos de compra desta consumidora baseado no que ela já comprou no Brasil.
No Brasil, sempre que ocorre algum evento internacional, a Dior convida algumas das melhores clientes para irem neste evento, com tudo pago e ainda com direito a acompanhante!
Outra ação que eu achei genial é a de fazer desfiles nas casas das clientes. Eles organizam um evento na casa da cliente, que convida várias amigas, e a coleção é explicada look por look.
Quanto aos desafio de uma marca de luxo no Brasil, Rosangela afirma que manter o mesmo sentimento da marca em todos os locais do mundo é imprescindível e pode se alcançado não apenas com o VM e design de ambientes da loja, mas através do mix de produtos.
…e este é um resumo do evento. Para quem não viu, pode conferir o post do primeiro dia aqui.
Até semana que vem!