Olá criativos! Hoje vim falar pra vocês sobre o grafite, arte de rua que certamente agrada aos que são contemplados.
O grafite é costumeiramente confundido com pixação para os mais tradicionais, mas nós, criativos, temos (e devemos) ter a cabeça aberta pra diversas expressões artísticas nacionais, dentre elas, a que está entre as melhores do mundo. Saber distinguir qualidade artística de poluição visual é o grande fator, demanda percepção e sensibilidade às causas a que lhe são prestadas.
O grafite chegou ao Brasil na década de 70, depois que a tendência norte-americana saturou e percebeu-se a necessidade de incrementar utilizando nuances tipicamente brasileiras, relacionando o estilo com os movimentos populares da época.
Trago pra vocês hoje um artista de/da minha cidade Natal que tem prestigiado pessoas de vários cantos do país, James Williams. Ele assina com ToLigadoBoe e compõe a cultura local inspirando os demais com o seu trabalho. Leiam em sequência uma entrevista bem interessante, é raro encontrarmos artistas conhecidos que assinam suas artes em muros públicos e topam conversar de forma descontraída, aproveitem!
Choco la Design – Quando começou a se interessar em expressar-se artisticamente?
JW – Comecei dentro de casa dos meus pais, no improviso. Sempre tinha alguma novidade para driblar, alguma dificuldade. Meus irmãos começaram a pichar muito cedo quando a gente morava no Rio de Janeiro e sempre tinha uns “brindes da rua” como placa de trânsito, placa de parada de ônibus, cone etc. rsrs (risos)! Meu pai, um fuzileiro naval, ficava furioso, mas sempre meus irmãos inventavam uma desculpa. Em 1990, meu pai foi transferido para Natal. Como o movimento da pichação era pequeno ainda e tinha muitos lugares para trabalhar o picho, logo eles ganharam destaque e foram um dos pichadores mais procurados aqui da cidade. Meus irmãos tinham tipo uma liga, “a união”. Em suas ideias, assinavam com o “U”. A ação mais ousada foi no antigo Hotel Tirol. Eles entraram lá como hóspedes e picharam toda a lateral. Na época, o assunto foi alvo de muitos comentários na cidade, principalmente pelo movimento.
Isso tudo pra mim era o máximo e meu pensamento só estava em fazer o mesmo. Mas como pichador tive uma carreira pequena, rsrs (risos)! Durou até os 15 anos. Depois disso, só desenhava na capa do caderno e colava nas caixas da antiga TELERN, mas nunca estava satisfeito. Foi aí que, já em 2006, no Recife, nasceu o Toligadoboe com os cartazes de olhos coloridos em tapumes de obra, depois disso virou realmente um projeto que venho trabalhando aos poucos. Não tenho pretensões de usar para sustentar minha família, mas se um dia isso acontecer, que seja da minha forma.
Choco la Design – A sua habilidade nos muros reflete em alguma outra atividade artística?
JW - Eu acho que minha habilidade do muro é uma mistura de coragem com vontade de fazer o trabalho, não tem mistério. É você ter mais vontade de fazer o trampo que ficar com medo de pedir autorização ou ter medo de algum policial enquadrar você. Como eu não tenho medo de nenhuma das duas possibilidades eu vou pra cima dos caras.
Choco la Design – Qual o contexto que você utiliza para compor a sua imagem?
JW - Eu curto muito cordel e ajudou muito pra desenvolver meu estilo de trabalho. Meus desenhos refletem muito na cultura popular e acho que isso remete muito na minha infância, nas coisas que eu vivi. Como o futebol descalço na rua, o samba que meu pai escutava na varanda, os meus discos que eu tinha da furação 2000. Engraçado que isso ainda é muito a realidade de muita gente nas periferias das cidades. Hoje as coisas mudaram aqui em Natal. A minha vida saiu um pouco deste contexto de periferia, como minha família. Apesar da grande melhoria, às vezes sinto uma falta absurda da infância e pra mim essa é parte que mais me motiva para meus desenhos na rua.
Choco la Design – Qual o seu critério para a escolha do local? Você opta pelos locais comuns ou prefere distanciar-se de outros artistas?
JW – Particularmente, eu gosto de pintar sozinho. Acho que fico mais livre pra fazer o meu trabalho. Mas quando tem algum colega querendo pintar junto, sem problemas. Quanto à escolha do local, geralmente já tenho o lugar em mente. É como se dentro de mim tivesse um google maps com todos os lugares). Gosto de lugares abandonados em avenidas ou ruas bem movimentadas, também gosto de lugares em próximos a favelas. Como na cidade ainda tem muito muro de bobeira, ainda não fui em lugares mais próximos a favelas, aqui em Natal.
Choco la Design – Qual a sua técnica de pintura?
JW – Uso latex com pigmentos pra fazer as cores na hora. Gosto de improvisar as cores na hora da correria. Para fazer os traços pretos, uso spray. Tanto em telas como em pinturas menores, uso caneta posca preta nos traços.
Choco la Design – Prevê antes do início de como se dará a arte concluída?
JW – Geralmente antes de pintar eu faço uns rafs, mas nunca vejo um resultado final antes. É complicado imaginar o trabalho concluído, saca? Quando eu termino geralmente eu acho que poderia ficar melhor. Às vezes fico feliz com o resultado, mas acontece muito de ficar um pouco insatisfeito com o resultado final. É meio louco isso tudo.
Choco la Design – Que tipo de material você utiliza?
JW – Eu uso o latex, pigmentos, sprays, canetas posca, rolinhos e uma boa escada. Afinal, com um 1,66cm é meio complicado para pintar em cima rsrs (risos).
Choco la Design – Você tem algum tipo de restrição quanto ao emprego de sua arte?
JW – É meio louco isso. Particularmente eu acho meu trabalho fácil de passar uma mensagem quando eu faço elementos musicais ou esportivos. Hoje, eu estou na vibe de fazer os bonecos deitados, tipo peixes com uma sensação de liberdade, entende? O problema que às vezes quando eu faço o boneco grande deitado, sem o fundo azul, poucas pessoas entendem e sempre tem um curioso perguntando que diabos estou pintando. Esse resultado final está fazendo eu mudar e procurar trabalhar outra mensagem. Tipo, esse final de semana passado já fiz um boneco com um toca-fitas e por ai gente vai trabalhando.
Choco la Design – Já sofreu algum tipo de opressão pela atividade?
JW – Na rua, em qualquer atividade artística você sofre opressão. Quem vai à rua para fazer alguma coisa em prol da cultura sofre com isso. Faz parte! Não é só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. Claro, tem lugares que você sofre menos. Eu já sofri em alguns enquadros, mas nada demais. Quem os fez, talvez estava no direito de procurar alguma coisa errada e eu estava no meu direito de expor os próprios sentimentos artísticos de alguma forma. Respeito muito os dois lados da moeda, porque não devo nada para ninguém e qualquer pessoa que for me abordar eu vou conversar com o maior respeito do mundo. Na rua é respeito acima de tudo, como dizia Sabotage “respeito é pra quem tem”.
Choco la Design – Qual a função do grafite pra você?
JW – A função é passar sempre algum tipo de mensagem, a maioria gosta de passar mensagens de protesto, outros passam sentimentos etc.
Eu tinha muito esse lance do protesto quando colava os cartazes com os olhos, mas o trabalho foi evoluindo e o grafitti virou um tipo de válvula de escape pra mim, mas sei que o meu trabalho incentiva outras pessoas e isso é parte mais significativa, contribuir para o movimento e ajudar outros talentos. Hoje, temos um cenário pequeno, mas com muito potencial e quem vem em uma crescente na cidade. O grafitti me ajuda muito em relaxar. Eu tenho uma profissão que exige muito de mim, talvez porque seja muito viciado no trabalho, então com essa pressão e exigência em fazer o melhor trabalho possível eu sempre senti a necessidade em trabalhar bem a minha insanidade mental. Eu acredito que todos nós precisamos ter esse relaxamento mental. Tem gente que nas horas vagas gosta de encher a cara com um churrasco, ver um filme, jogar PS3, bola, um carteado e etc… Até gosto muito de fazer essas coisas e outras, mas pintar na rua é uma opção de tirar qualquer problema das costas e renovar o espírito.
Espero que tenham aproveitado! Vocês podem ver mais da arte de James na sua página do Flickr! Até a próxima!


